Arquivo de 29 Decembro 2008

Fernando Venâncio, lingüista portugués:
“A AGLP é un erro monumental;
en Portugal reina o silencio sobre ela”

Chegou a hora de tirar abaixo boa parte dos mitos que existen arredor do galego e o portugués. E nada mellor que facelo da man dun lingüista portugués de recoñecido prestixio, considerado como un dos principais defensores do reintegracionismo máis alá do Miño. Fernando Venâncio non cala ante o “fundamentalismo” dos “lusistas fanáticos” que lle chaman ao galego “portugués da Galiza”, e recorda que non existe case ningún filólogo luso que considere o noso idioma unha variedade máis do portugués.

Pero Venâncio, nunha entrevista en exclusiva concedida a alema.org, tampouco aforra críticas ao reintegracionismo, do que recorda que “nunca formulou un plan estratéxico para a introdución da súa normativa” e que nin sequera saudou as últimas reformas da RAG, optando por estar sempre “cos dous pés fóra”. Venâncio, contrario á creación da AGLP, prepara un libro que demostra que o portugués se distanciou do galego por unha “castelanización masiva” levada a cabo entre 1400 e 1700, o cal desbotaría as teorías da “virxinidade” do portugués con respecto ao castelán.

alema: Para comezar, gustaríame preguntarlle polas denuncias que fixo vostede recentemente sobre a existencia de certos grupos que pretenden facer do galego algo que non é… É un erro chamarlle ao galego “portugués da Galiza”?
Fernando: É um erro completo. É uma provocação, numa situação já de si tão complicada. Galego é o nome prestigioso da língua da Galiza. Só umas mentes doentias lho negariam. Chamarem-lhe «português» é uma forma infantil de desafiarem Madrid. O presidente da nova Academia lusista, discursando no túmulo de Rosalía, chamou à língua portuguesa «alma da Galiza». É dum ridículo ululante.

alema: A ver se o entendo… Vostede é partidario dunha norma como a AGAL para o galego… reintegracionismo, pero con siso… é así?
Fernando: Mais ou menos. A norma AGAL é uma boa proposta, mas de facto demasiado avançada para ser a única. Eu defenderia, como fazem hoje alguns jovens reintegracionistas, um binormismo: a norma RAG mais a norma AGAL em igualdade de oportunidades.

alema: A norma RAG? Non era vostede pro-reintegracionista?
Fernando: Eu sou um simples português que se interessa pela Galiza e pelo galego. Nasci no Alentejo interior sul, terra de berberes. Menos ‘galego’, em Portugal, é impossível. Mas tenho esta pancada galega, esta loucura mansa.

alema: A ver… Vaiamos ao principio. Galego e portugués son ou non son a mesma lingua?
Fernando: São. Mas isso não é coisa óbvia. Se fosse óbvio, todos os que pensam diferentemente (e são muitos, na Galiza e em Portugal) seriam loucos. Só que os lusistas fanáticos acham isso mesmo: que todos os outros são loucos.

alema: Cando se pode dicir que unha lingua se independiza doutra, segundo vostede?
Fernando: A decisão sobre se há duas línguas, ou só uma, é fundamentalmente política. Basta nós assim querermos, e o espanhol e o português são a mesma língua. Muitos ‘dialectos’ italianos distam mais do padrão toscano do que o português do espanhol.

alema: E, francamente, ve posible a medio ou longo prazo que se tome esa decisión política?
Fernando: A de galego e português? De que são dois nomes para o mesmo idioma, com duas normas marcadas e irredutíveis? Não decerto nos próximos 20 anos. E quanto mais os radicais (tanto os espanholistas como os lusistas) perturbarem o campo de visão, mais tempo vai levar.

alema: Entón… Para que o reintegracionismo? Serve para algo realmente?
Fernando: Serve para… “manter a chama”. Mas nem o poder galego nem a República Portuguesa têm a mínima intenção de tomar esse caminho. Somos uns sonhadores. Só que alguns deliram no sonho. E é preciso lembrar que o reintegracionismo, em 25 anos, nunca formulou qualquer programa estratégico para a introdução da sua normativa, com faseamento, prioridades, viabilidade política, alianças pontuais. Nada parecido. Vivem, concretamente, como se amanhã de manhã a Galiza acordasse reintegracionista. E, pior, tentam dar a Portugal essa ideia.

alema: Non sería mellor que o galego e o portugués se inter-relacionasen en pé de igualdade? Quero dicir, desde a súa independencia?
Fernando: Sim, claro. Esse relacionamento explícito, aberto, que não existe hoje, seria já um passo adiante tremendo. Um vasto ensino do português na Galiza, com a vantagem que ser galegofalante significa, traria imediatamente (como gosta de afirmar Elias Torres Feijó) um aumento de «qualidade de vida». Sim, tanto tempo que anda a perder-se!

alema: Cal é a percepción real que existe na cidadanía portuguesa sobre o galego?
Fernando: Da parte da sociedade em geral, é a duma língua vagamente diferente da espanhola. O que não se estranha… España es tan diferente! Da parte das elites, a vaguidez é menor, mas mantém-se. Para os linguistas, trata-se dum idioma interessantíssimo, mas de que ocupam pouco. Praticamente todos os estudos comparativos são de galegos, não de portugueses. Mas os contactos entre linguistas dos dois países são óptimos.

alema: E xa que fala dos lingüistas e filologos portugueses… existe unanimidade entre eles á hora de considerar o galego unha variedade máis do portugués?
Fernando: De modo nenhum. O último linguista português que afirmou a identidade de galego e português, Luís Lindley Cintra, morreu em 1991. Dos vivos, Helena Mira Mateus (a grande decana da nossa linguística) afirmou essa identidade, em 1986, numa obscura revista brasileira. Mas nunca republicou o texto nem voltou ao tema.

alema: Que me quere dicir? Que a meirande parte dos linguistas portugueses non consideran o galego unha variedade do portugués? Isto non é o que están vendendo aquí algúns grupos…
Fernando: A maior parte? Repito: nem um só linguista português vivo o afirma. Eu sei: os lusistas radicais levaram recentemente a Santiago uns fulanos académicos que nunca na vida escreveram uma linha sobre o galego ou a Galiza. Mas ali, em Santiago, tiveram o seu caminho de Damasco… que entretanto já arquivaram. Não é a língua que lhes interessa, é o poder.

alema: Cando escoita vostede un galego falar en reintegrata, que sente?
Fernando: Os galegos reintegratas com que contacto falam simplesmente galego. Às vezes com «buenos» à mistura… Mas em alguns sente-se o esforço por se acomodarem a mim. Tenho pena.

alema: Cre que cando se acomodan a vostede, eses galegos son artificiais?
Fernando: Claro. Mas são pessoas gentilíssimas! É por isso que o fazem. Mas eu próprio me acomodo por vezes. Um exemplo. Falando com galegos, direi «os círculos culturais portugueses». Se disser «os meios culturais», pensarão que falo em meios de comunicação.

alema: Ata que punto as pelexas normativistas poden ser un factor negativo para a normalización do galego? Non cre que xa debería terminar este debate eterno?
Fernando: Sim, estes decénios em disputa permanente são um factor negativo, até pela irresponsável quantidade de energia que suga a uns e outros. Negativo, também, para o exterior. Dói-me ouvir colegas portugueses dizerem: “Esses galegos, que nunca se entendem”. Houve, há uns anos, um momento promissor de entendimento, aquele em que a AGAL, na presidência de Penabade, efectuou uma cuidadosa aproximação ao establishment. Hoje, continuam os esforços. Mas os radicais estão de olho aberto, e não admitem aventuras. O reintegracionismo cometeu um erro estratégico colossal já em 1983: não declarar o galego normativo uma forma (deturpada, se se quiser, mas forma) da nossa língua. Se o tivessem feito, teriam desde então um pé dentro. Assim, continuaram sempre com os dois de fora. Nem a revisão nitidamente ‘lusista’ da normativa em 2003 eles souberam saudar. É desmoralizador.

alema: O normal sería que a minoría, os reintegratas, se adaptase ao que pensa a maioría da comunidade científica, non?
Fernando: Não é assim tão simples. A maioria da comunidade científica internacional (e mesmo espanhola!) vê galego e português como um só sistema, e até como uma só língua. Mas a comunidade linguística portuguesa, e a brasileira, mais a galega, não. Portanto não há um consenso global sequer.

alema: Entón, que cre que deberiamos de facer os galegos nesa encrucillada?
Fernando: Muito simples. Tão simples que não consigo convencer ninguém a fazê-lo. Importa que alguém, não só afirme, mas DEMONSTRE, preto no branco, a fundamental contiguidade de galego e português e, quem sabe, o aceitável duma identidade. De momento, tudo isso, contiguidade ou identidade, ou o seu contrário, é matéria de FÉ, e portanto pode ser afirmado, ou desmentido, sem quaisquer consequências. O facto é que nem os reintegracionistas, nem a linguística portuguesa, nem o establishment linguístico galego, estão interessados nessa demonstração. Aos reintegracionistas, inspira-os um filo-portuguesismo sem contacto com a realidade. Aos fundamentalistas entre eles, move-os um anti-espanholismo militante. E os linguistas, galegos e portugueses, têm do idioma uma única visão, a nacionalista. Espero poder mostrar, num livro que preparo, que o português se afastou do galego por uma maciça castelhanização entre 1400 e 1700. Sim, a renovação renascentista do português foi feita “em castelhano”. E hoje a mais recente castelhanização do galego vem afastar-nos mais ainda.

alema: Ui, pois xa ve que polémicas hai aquí polas interferencias do castelán
Fernando: Sabe, em Portugal, a longa independência política, mais o efectivo desconhecimento do galego e do castelhano nas elites, e mesmo entre os linguistas, tudo isso nos permite manter a ilusão dum idioma virginal. A aceitação da proximidade com o galego e o castelhano perturbaria essa visão idílica. Por isso essa proximidade é negada. Vou tentar pôr à vista o que a História oficial da Língua Portuguesa andou séculos a esconder.

alema: Eu mesmo estou levando a cabo unha iniciativa para incorporar a interxección “bueno” (un castelanismo evidente) como plenamente galega dado que é de uso extensísimo en Galicia. E máis: nós os galegos adaptamos esa palabra para darlle un matiz diferente. Que lle parece?
Fernando: Penso que ‘bueno’ é um exemplo de castelhanismo gritante. Tem a infelicidade desse ditongo da Meseta. Depois, há na Galiza alguns castelhanismos que poderiam erradicar-se, aos poucos, com consenso, e com sentidinho, como dizeis… Mas eliminar os castelhanismos, do galego ou do português, é obrigar-nos a falar com meia boca.

alema: Fernando, é consciente de que as súas palabras poden causar moita polémica? Mire que vostede é considerado un dos piares portugueses a favor do reintegracionismo…
Fernando: Ouça. Eu sinto-me muito próximo dos reintegracionistas moderados da AGAL (prefiro não dar nomes, para não expô-los mais) e dos reintegracionistas no establishment galego: Ramón Freixeiro Mato, Pilar García Negro, Xavier Alcalá, Camilo Nogueira. E sinto-me perto também de outros galegos, galegos até à medula, que vivem amargurados com a deriva lusista da RAG! Esses são os verdadeiros párias, e ninguém pode acusá-los -porra!- de dormirem com o inimigo.

alema: A Academia Galega da Língua Portuguesa é un erro?
Fernando: A AGLP é um erro monumental. É uma pesada hipoteca sobre o entendimento linguístico galego. E é uma provocação inteiramente gratuita, sendo a AGAL a primeira a ressentir-se dessa provocação. Único lado positivo: em Portugal, reina sobre essa Academia um esplêndido silêncio. Por esse lado, vamos a tempo de limitar estragos.

alema: É certo, logo, que hai presións para que triunfen as teses máis lusistas e para apartar os reintegracionistas moderados?
Fernando: Deu-se uma clivagem, não resta dúvida, uma separação das águas. Basta ver quantos mestres reintegracionistas da AGAL souberam resistir às sereias da AGLP. Quanto a pressões, há todo o motivo para supô-las. Mas tenho amigos na AGAL, e custa-me falar disso. Eles hão-de achar a melhor saída. Mas o mais curioso é que a AGLP se erigiu como campeã dum Acordo «uniformizador» da grafia do português, e descobre agora que meteu uma bomba na algibeira. O Acordo estabelece, na realidade, a «diferenciação» da grafia segundo a pronúncia das classes «cultas» de cada país. A aplicarem o Acordo, teriam de seguir a pronúncia galega, o que é, para eles, a fórmula mesma da catástrofe. São uns aprendizes de feiticeiro.

———————————————–

Fernando Venâncio é lingüista português e traballa na Universidade de Amsterdam. Organizou en 2007 para o semanario Expresso de Lisboa un amplo informe sobre Galicia. Concedeulle unha entrevista a Grial (a primeira dun portugués) no número 172, de 2006. Publicou en 2007, no nº 13 de Viceversa da Universidade de Vigo un longo artigo sobre edicións portuguesas de literatura galega. Foi durante varios anos un activo blogueiro en Aspirina B (aspirinab.com), onde tratou temas galegos, amplamente comentados. Ademais, escribiu varios artigos e participou en diversos debates no PGL (Portal Galego da Língua). Máis información sobre a súa traxectoria aquí.

69 comments Decembro 29th, 2008


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